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A Europa em convulsão: quando o povo deixa de acreditar nas instituições.

há 6 dias
6 min de leitura

Da França às ruas de Roma, Madri e Lisboa, os protestos revelam uma crise que ultrapassa a economia e coloca em discussão a autoridade política, o contrato social e o futuro da democracia europeia.

20 de outubro de 2026 · Artigo de análise e opinião


Manifestação nas ruas de Paris, com manifestantes segurando bandeiras francesas e cartazes protestando contra reformas governamentais, enquanto se dirigem à icônica Coluna de Julho na Praça da Bastilha.
Manifestação nas ruas de Paris, com manifestantes segurando bandeiras francesas e cartazes protestando contra reformas governamentais, enquanto se dirigem à icônica Coluna de Julho na Praça da Bastilha.

O continente que ensinou a revolução volta às ruas



A Europa, frequentemente apresentada como referência de estabilidade institucional, desenvolvimento econômico e direitos sociais, enfrenta uma nova onda de insatisfação popular.

Na França, manifestações inicialmente associadas às condições precárias da educação ganharam dimensão nacional, incorporando reivindicações contra o aumento do custo de vida, a deterioração dos serviços públicos e a perda do poder de compra.

Em 17 de outubro de 2026, centenas de milhares de franceses participaram de manifestações. Embora grande parte dos atos tenha ocorrido pacificamente, episódios posteriores de violência, incêndios, saques e confrontos policiais atingiram cidades como Paris, Lyon e Marselha.

O fenômeno não está restrito à França. Itália, Espanha, Portugal e Bélgica também registram mobilizações motivadas por questões econômicas, educacionais e habitacionais.

Entretanto, interpretar esses acontecimentos exclusivamente como manifestações contra a inflação seria reduzir um problema estrutural a uma circunstância econômica.

O que parece estar em crise não é somente o poder de compra do cidadão europeu, mas sua confiança na capacidade do Estado de representar seus interesses.



A França e a ruptura do contrato social



Para compreender a gravidade dos acontecimentos franceses, é necessário recorrer à filosofia política.

Em Do Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau estabelece uma reflexão fundamental sobre a legitimidade do poder político: a autoridade não deve ser compreendida como propriedade particular dos governantes, mas como expressão de uma associação política fundada na vontade geral.

Sob essa perspectiva, o Estado perde legitimidade moral quando suas instituições deixam de ser percebidas como instrumentos do interesse coletivo.

A França contemporânea apresenta sinais preocupantes dessa tensão.

O governo de Emmanuel Macron enfrenta crescente desgaste político, agravado pela fragmentação parlamentar, pelas dificuldades fiscais e pelo descontentamento de parcelas da juventude. As manifestações também remetem à memória dos Coletes Amarelos, movimento iniciado em 2018 contra os custos dos combustíveis e posteriormente ampliado para outras reivindicações sociais.

Existe, porém, uma contradição que merece atenção.

O Estado exige respeito às instituições, enquanto parte da população questiona se essas mesmas instituições continuam respeitando suas necessidades.

Isso não significa justificar ataques a prédios públicos, agressões ou destruição de propriedades. O direito de manifestação não equivale ao direito de violência.

Significa reconhecer que a manutenção da ordem pública, embora necessária, não substitui a reconstrução da confiança política.



Hobbes e o perigo da desintegração da autoridade

Em Leviatã, Thomas Hobbes compreende o Estado como uma estrutura necessária à contenção dos conflitos humanos.

Sem uma autoridade capaz de garantir segurança e estabilidade, a sociedade corre o risco de mergulhar em disputas permanentes.

A atual situação francesa permite estabelecer um paralelo com essa preocupação hobbesiana.

Quando manifestações legítimas são acompanhadas por grupos que recorrem à violência, surgem dois riscos simultâneos: a desestruturação da segurança coletiva e a possibilidade de respostas estatais desproporcionais.

O governo francês passou a adotar medidas de contenção, incluindo restrições localizadas de circulação, enquanto enfrenta críticas pela incapacidade de antecipar a dimensão dos confrontos.Entretanto, uma sociedade não se sustenta apenas pela força de suas instituições policiais.

A autoridade política precisa combinar capacidade de ação, legitimidade e reconhecimento público.

Um Estado que consegue impor silêncio, mas não consegue produzir confiança, pode conquistar tranquilidade momentânea sem alcançar estabilidade duradoura.



A Europa protesta contra governos ou contra um modelo de sociedade?



A insatisfação europeia possui características distintas em cada país.

Na Espanha e em Portugal, o encarecimento da habitação tornou-se uma questão central. Na Itália, salários, inflação e serviços públicos alimentam manifestações. Na Bélgica, reformas educacionais e políticas de austeridade mobilizam estudantes e trabalhadores.

Apesar das diferenças, existe um elemento comum: a percepção de que o progresso econômico e institucional já não se traduz necessariamente em segurança material para a população.

Essa contradição pode ser examinada a partir do pensamento de Karl Marx, especialmente de sua crítica às relações econômicas que produzem desigualdade e alienação.

Não é necessário aceitar integralmente a teoria marxista para reconhecer uma questão importante: quando o indivíduo participa da produção de riqueza, mas encontra dificuldades crescentes para garantir moradia, educação e condições dignas de existência, a confiança no sistema econômico tende a ser questionada.

Entretanto, também seria equivocado atribuir todos os problemas europeus exclusivamente ao capitalismo.

Envelhecimento populacional, limitações fiscais, decisões governamentais, conflitos geopolíticos e dificuldades estruturais dos serviços públicos compõem um cenário mais complexo.

O problema central é que as promessas de estabilidade parecem cada vez mais distantes da experiência cotidiana de muitos cidadãos.



A sociedade do espetáculo e a transformação da revolta em imagem



O filósofo Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo, oferece outra perspectiva relevante.

Na sociedade mediada pelo espetáculo, a representação dos acontecimentos pode adquirir mais importância do que a compreensão das relações sociais que os produziram.

Essa reflexão torna-se especialmente pertinente diante das manifestações europeias.

As imagens de veículos incendiados, barricadas e confrontos policiais circulam rapidamente pelas redes sociais. Entretanto, questões relacionadas à educação, à desigualdade econômica e à representação política frequentemente recebem menos atenção.

A violência produz imagens impactantes. As causas estruturais exigem investigação.

Existe, portanto, o risco de que o debate público se concentre exclusivamente na oposição entre manifestantes e policiais, ignorando as condições que levaram milhares de pessoas às ruas.

Isso não diminui a gravidade dos atos violentos. Pelo contrário, exige distinguir manifestações legítimas de práticas criminosas e evitar que a conduta de determinados grupos seja atribuída indiscriminadamente a todos os participantes.

Quando o espetáculo da revolta substitui a compreensão de suas causas, a sociedade passa a discutir as consequências enquanto permanece incapaz de enfrentar suas origens.



O perigo da radicalização política



Outro aspecto preocupante é o aproveitamento político das manifestações.

Na França, a crise ocorre às vésperas da eleição presidencial de 2027, em um ambiente de fragmentação partidária e crescente polarização. Lideranças de diferentes campos ideológicos disputam a interpretação dos acontecimentos e a responsabilidade pelos confrontos.

Nesse cenário, a insatisfação popular pode ser transformada em instrumento de mobilização eleitoral.

A filósofa Hannah Arendt demonstrou, em suas análises do totalitarismo, como o isolamento político, a fragilização dos vínculos sociais e a desconfiança nas instituições podem favorecer movimentos autoritários.

Isso não significa que os protestos atuais conduzirão inevitavelmente ao autoritarismo. Significa que democracias fragilizadas precisam prestar atenção aos mecanismos pelos quais o ressentimento coletivo pode ser explorado.

Quando a política abandona o debate racional e passa a depender exclusivamente da identificação de inimigos, a divergência deixa de ser compreendida como parte da democracia e passa a ser tratada como ameaça existencial.

É nesse ambiente que soluções simplistas encontram terreno fértil.



Conclusão: a Europa está perdendo sua estabilidade ou sua credibilidade?



A Europa não enfrenta uma única revolta, tampouco uma crise homogênea. Cada país possui suas particularidades históricas, econômicas e políticas.

Entretanto, os acontecimentos de outubro de 2026 revelam uma tensão comum entre expectativas sociais e capacidade de resposta institucional.

A França representa um caso especialmente significativo porque carrega uma tradição histórica na qual a contestação da autoridade política desempenhou papel decisivo na formação da modernidade.

O país que consagrou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade encontra-se novamente diante de uma pergunta fundamental: como preservar a legitimidade democrática quando parte da sociedade deixa de reconhecer suas necessidades nas decisões do poder?

A resposta não está na romantização da violência, nem na defesa de uma autoridade imune à crítica.

Está na compreensão de que instituições democráticas precisam oferecer mais do que estabilidade formal. Precisam demonstrar capacidade de representação, responsabilidade e diálogo.

A verdadeira ameaça a uma democracia não começa necessariamente quando as pessoas ocupam as ruas. Começa quando elas deixam de acreditar que suas vozes podem produzir mudanças por meio das instituições.

E talvez essa seja a contradição mais profunda da Europa contemporânea: um continente que ajudou a formular os fundamentos da democracia moderna precisa, mais uma vez, demonstrar que suas instituições são capazes de responder à sociedade que afirmam representar.


Além da Narrativa — Porque compreender os acontecimentos exige questionar aquilo que aparece na superfície.


Fontes jornalísticas para referência no site

 
 
 

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