Maquiavel em 2026: o poder mudou de aparência, não de natureza

Mais de cinco séculos depois de Nicolau Maquiavel escrever O Príncipe, talvez tenhamos desenvolvido novas tecnologias, novas instituições e novas formas de comunicação. Mas há algo que permanece surpreendentemente familiar: a disputa pelo poder.
As eleições brasileiras de 2026 oferecem um cenário privilegiado para observar esse fenômeno. O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, mobilizou mais de 158 milhões de eleitores aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
Porém, além dos votos e dos candidatos, existe uma pergunta mais profunda:
O que Maquiavel enxergaria se observasse a política de 2026?
Provavelmente reconheceria muito mais do que imaginamos.
A política não é o território da inocência
Uma das grandes rupturas associadas ao pensamento maquiaveliano está em analisar a política a partir de sua dinâmica concreta.
Governar não significa simplesmente possuir boas intenções. Significa compreender forças, interesses, alianças, adversários, circunstâncias e consequências.
Essa distinção continua fundamental em 2026.
O discurso político frequentemente apresenta a disputa eleitoral como um confronto moral absoluto: de um lado estariam os defensores do bem; do outro, aqueles que supostamente representam tudo aquilo que precisa ser derrotado.
Maquiavel provavelmente desconfiaria dessa simplificação.
Por trás da retórica existem estratégias.
Por trás das alianças existem interesses.
Por trás da imagem pública existe cálculo político.
Isso não significa que todos os políticos sejam iguais ou que princípios sejam irrelevantes. Significa apenas reconhecer que moralidade declarada e exercício do poder não são necessariamente a mesma coisa.
A aparência tornou-se parte do poder
Existe outro elemento profundamente maquiaveliano na política contemporânea: a importância da percepção.
Na sociedade digital, um político não administra somente decisões. Administra também sua própria imagem.
Fotografias, vídeos curtos, discursos, cortes de entrevistas, debates, memes e publicações nas redes sociais transformaram a disputa política em uma batalha permanente pela interpretação dos acontecimentos.
O político contemporâneo precisa parecer próximo, competente, indignado, forte ou moderado conforme o público que pretende alcançar.
Nesse sentido, a política de 2026 possui uma dimensão que Maquiavel talvez reconhecesse imediatamente.
Não basta possuir poder. É necessário construir a percepção de que se merece possuí-lo.
E aqui nasce um problema fundamental: quando a política se transforma demasiadamente em espetáculo, o eleitor corre o risco de avaliar personagens em vez de projetos.
Virtù e fortuna em 2026
Dois conceitos ajudam especialmente a compreender Maquiavel: virtù e fortuna.
A fortuna representa aquilo que escapa completamente ao controle do governante: crises econômicas, acontecimentos internacionais, escândalos, mudanças sociais e circunstâncias inesperadas.
A virtù, por sua vez, está relacionada à capacidade de agir diante dessas circunstâncias — inteligência política, coragem, adaptação, estratégia e capacidade de aproveitar oportunidades.
A política de 2026 continua submetida exatamente a essa tensão.
Um candidato pode possuir recursos, estrutura partidária e popularidade e, ainda assim, ser surpreendido pelos acontecimentos.
Outro pode transformar uma crise em oportunidade política.
É nesse ponto que Maquiavel permanece atual: a política não pertence necessariamente àquele que controla todas as circunstâncias, mas frequentemente àquele que consegue interpretá-las melhor.
O medo como instrumento político
Há ainda uma dimensão particularmente delicada.
O medo sempre foi politicamente poderoso.
Medo da crise econômica.
Medo da violência.
Medo da perda de direitos.
Medo do adversário.
Medo de que determinado grupo destrua o país.
Quanto maior a polarização, mais fácil se torna substituir a pergunta “qual projeto considero melhor?” por outra muito mais emocional:
“Quem eu preciso impedir de chegar ao poder?”
Nesse momento, o voto deixa parcialmente de representar adesão e passa a representar rejeição.
A política então descobre uma força extraordinária: talvez seja mais fácil mobilizar pessoas contra um inimigo do que convencê-las em torno de uma ideia.
Maquiavel compreenderia perfeitamente essa lógica.
O novo príncipe não governa sozinho
Entretanto, aplicar Maquiavel ao século XXI exige uma correção importante.
O Brasil não é uma monarquia renascentista.
O poder está distribuído entre Presidência, Congresso Nacional, governos estaduais, Judiciário, partidos, instituições, sociedade civil e diferentes mecanismos constitucionais.
As próprias eleições de 2026 mostram essa distribuição: o eleitor não escolhe apenas o presidente, mas também governadores, senadores e representantes legislativos.
Por isso, talvez o “príncipe” contemporâneo não seja necessariamente uma pessoa.
O verdadeiro príncipe pode ser a própria estrutura de poder.
Partidos negociam.
Parlamentares formam blocos.
Governos constroem coalizões.
Grupos econômicos defendem interesses.
Movimentos mobilizam parcelas da sociedade.
Influenciadores disputam percepções.
E milhões de cidadãos participam dessa estrutura através do voto e do debate público.
O poder tornou-se mais fragmentado, mas não deixou de ser poder.
A guerra das narrativas
Existe ainda algo que Maquiavel não conheceu em sua forma atual: o algoritmo.
Nunca houve tanta informação disponível.
Paradoxalmente, nunca foi tão fácil viver dentro de uma realidade política personalizada.
Cada grupo recebe notícias, interpretações, vídeos e discursos capazes de confirmar aquilo em que já acredita.
Assim, esquerda e direita podem observar o mesmo acontecimento e construir interpretações completamente diferentes sobre ele.
A batalha política deixa então de ocorrer apenas pelo controle das instituições.
Ela ocorre também pelo controle da interpretação da realidade.

Quem consegue definir o significado de um acontecimento conquista uma vantagem extraordinária.
É justamente aqui que política, psicologia das massas e tecnologia se encontram.
Maquiavel nunca foi embora
Talvez seja confortável imaginar que a democracia moderna superou completamente a política descrita há séculos.
Não superou.
Ela criou instituições capazes de limitar, distribuir e fiscalizar o poder — conquista fundamental da civilização política moderna.
Mas não eliminou ambição, medo, interesse, oportunismo, estratégia ou desejo de influência.
O cenário mudou.
As ferramentas mudaram.
Os palácios deram lugar também aos parlamentos, tribunais, emissoras, smartphones e redes sociais.
Mas o ser humano continua disputando poder.
E talvez essa seja a contribuição mais incômoda de Maquiavel para compreender 2026:
antes de perguntar quem parece virtuoso, precisamos compreender quem deseja poder, quais instrumentos utiliza para conquistá-lo e o que pretende fazer depois de obtê-lo.
Porque uma democracia não depende apenas da existência do voto.
Depende da capacidade do cidadão de perceber aquilo que existe além da narrativa.
Além da Narrativa - pensando,
questioando e retirando o vel da narrativa.





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